A definição de novos parâmetros de aversão ao risco nos modelos computacionais do setor elétrico pode adicionar R$ 9 bilhões de custos ao consumidor de energia em 2026. A afirmação da Abraceel reforça a necessidade de reavaliar a rigidez do critério de 90% de atendimento da CRef (Curva Referencial de Armazenamento), considerando os ganhos econômicos expressivos e o não comprometimento da segurança operativa.
No caso, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) tem até 31 de julho para tomar essa decisão que pode causar impactos mediante o aumento da geração termelétrica. O CRef é uma régua para indicar o nível mínimo de armazenamento desejado nos reservatórios ao longo do tempo. Além dele, está em jogo o par do CVaR (Conditioned Value at Risk), uma metodologia de aversão ao risco. E cujos parâmetros, apresentados em dupla, são usados para calibrar o risco hidrológico.
Atualmente, o critério de atendimento da CRef está em 85% e o par do CVaR é 15,40. Isso significa que os modelos consideram os 15% piores cenários hidrológicos com um peso 40% maior para determinar até que ponto utilizar água dos reservatórios ou despachar UTEs para gerar energia. É uma decisão visando a segurança energética, mas com incremento de custo devido à maior preservação dos recursos hídricos e maior acionamento do parque térmico.
ONS e CCEE sugerem alterar CRef para 90%
Na nota técnica conjunta na qual analisam os impactos dos parâmetros, ONS e CCEE destacam a observação de um comportamento esperado. Em todos os cenários, a redução da aversão ao risco leva a diminuição dos custos e, portanto, dos impactos tarifários. Já inversamente, o aumento da aversão eleva tanto os custos quanto seus respectivos efeitos.
Segundo o documento, mantido o parâmetro de atendimento da CRef em 85%, o par que oferece segurança energética pelo menor custo é o 15,30. E não mais o par 15,40. Contudo, de acordo com a Abraceel, sem nenhuma explicação técnica, a publicação sugere alterar o critério de atendimento da CRef para 90%. Assim, o par mais adequado passa a ser o 15,40.
Ainda conforme a nota conjunta, o par atual apresenta um uso excessivo de geração térmica. Os custos totais variam de R$ 8,1 bilhões a R$ 59,3 bilhões, conforme a hidrologia. Já um par alternativo como o 15,30, que atende ao critério anterior de 85% da CRef, indica redução no custo total de até R$ 9,1 bilhões. E com impacto marginal na energia armazenada nos cenários mais críticos.
Alternativa pode reduzir impacto tarifário em 4,4%
Dessa forma, a análise da Abraceel aponta que em termos de impactos tarifários, o par 15,30 oferece uma redução entre de até 4,4%. Assim, demonstra um equilíbrio mais eficiente entre risco e custo para o sistema. A entidade entender ser fundamental dar transparência aos motivos técnicos da recomendação para elevar o indicador de atendimento da curva de referência nos reservatórios de 85% para 90%.
“O risco é de induzir desnecessariamente à adoção de parâmetros de aversão ao risco exageradamente conservadores e facultar ao consumidor mais essa conta bilionária”, explica o presidente-executivo da Associação, Rodrigo Ferreira. Ele aponta ainda ser importante ter em mente que adotar parâmetros que signifiquem maior aversão ao risco resultará em mais térmicas despachadas e curtailment. E menos geração hidrelétrica.
O vice-presidente de Energia da Abraceel, Alexandre Lopes, também destaca ser importante manter coerência metodológica com o ciclo anterior e 85% da CRef. Em artigo publicado ontem (15) no CanalEnergia ele explora mais o tema. E lembra que a avaliação em curso é especialmente relevante dadas as mudanças na modelagem ocorridas desde a última calibração, em 2024.
Conforme a contribuição da Associação na consulta pública do MME, aumentar os critérios de aversão, à primeira vista, pode parecer a medida correta a ser adotada. É uma postura mais conservadora na gestão do sistema elétrico, percebida de forma positiva. No entanto, há consequências muito prejudiciais quando há estimação exagerada de riscos.


